Tudo Bem
Entrei fora de mão
Fiz a maior confusão
Correndo no passeio
Foi como um tiro certeiro

Do outro lado da portagem
Vi alguém disse-lhe adeus
Queria eu seguir viagem
Falei-lhe não respondeu

Está tudo bem
Tudo bem
Mesmo que outros nos olhem com desdém
Está tudo bem
Tudo bem
De vez em quando
Todos somos uns bons filhos da mãe

Parei no apeadeiro
Tudo tinha para ver
Vi-te logo a ti primeiro
Aqui ficas a saber

E seguindo o meu caminho
Perco-me antes de chegar
Por ali fico eu sozinho
Com ganas p’ra te encontrar

Posso esconder-me do escuro
Encostar-te à parede
Esbarrar-me contra um muro
Faço trapézio sem rede
Se depois de tudo isto
Não consegues entender
Melhor for a não ter visto
Não te dares a conhecer

Viras tudo do avesso
De modo quase vulgar
Esperas que te pague um preço
Que nunca vou poder dar

Impões a tua fasqui
Em jeito de ritual
Esqueces que há outras vidas
Como se fosse normal

Queres dizer as palavras
Que só os sábios sabem soletrar
Não digas mais coisas parvas
Podes fugir, eu vou-te agarrar

Na, na, na, na, na

Ensaias o dramatismo
Muito melhor do que eu
Estás para além do que invento
Sendo os meus vícios os teus

Ouvimos sempre os conselhos
Que os mais antigos podem ensinar
Mesmo que tenhas defeitos
De quando em vez podes zarpar

Na, na, na, na, na

Querer o tudo e pedir
Pedir tudo e querer
Uma vontade de agir, ensinou como fazer
O tempo acabou por vencer
Da próxima vez vou estar atento à tua fisgada
Encruzilhar-me na tua bancada
Ficar num canto e não me mexer

Mais uma vez vou seguir todos os teus caminhos
Fugir fingindo que me vês sorrindo
P’ra te fitar quando eu puder

Quero ser personagem de banda desenhada
Onde me assumo numa cena errada
E em que todos me vão descobrir

Quero ficar um pouco mais dentro do teu casulo
Faoç de conta que sou teu e tu és meu assunto
Onde me entrego e tu te dás a conhecer

Que ninguém vá onde vou
Nunca estás onde estou
Que ninguém fale de quem falou
Nunca digas quem eu sou

Da próxima vez vou querer toda a tua atenção
Vou esperar que me estendas a mão
E que me deixes cair a seguir

Mais que uma vez puseste à prova o teu sexto sentido
Depois dás o dito por não dito
Como eu gostava de te compreender…

Quero ser a solução do teu problema
Participando nesse mesmo esquema
Que só tu sabes entender

Queria ter só um pouco desse teu talento
Tiro as vogais e ponho os acentos
Estou preparado para o que der e vier.

No canto escuro da sala
Murmuravam dois poetas
Fiquei preso à minha alma
Seguindo as conversas

Ouvi Caetano e ouvi Palma
Cantar versos proibidos
Daqueles que noutros tempos
Cantavam só entre amigos

Sobre mim um compasso mais forte
Sei que posso nele naufragar
Quando estiver à beira do fim
Volto a começar

E se a estrada pode ser diferente
Quanto mais depressa quiser chegar
Se tiver que parar de repente
Vou recomeçar

Guardo nas minhas gavetas
Velhos discos de cantigas
De contracapas já negras
De tantas vezes mexidas

Quando tudo nos esmaga
Ficamos compremetidos
Com uma sede danada
Dos tais versos proibidos

Abri a porta e vi que ninguém está
Só um relógio no seu vagar
Não tem dono, não será capaz
Está condenado a parar
Ao longe um navio
Ancorado no seu porto de abrigo
Nem vento sentiu/está sozinho/fez o seu caminho

O amor é como o mar pode ir e voltar
O amor é como o mar, é um jogo de sorte entre o fraco e o forte
Pode até matar
O amor é como o mar, vem buscar o que lhe foram roubar

Vou gritar, sentir, escrever, mentir, enganar, libertar
Ver ruir, vou querer saber, vou ouvir dizer que o amor é como o mar
Será que sou um caso perdido e já gasto
Falei demais, ri-me demais

Por vezes não distingo o que é certo do errado
Fui um dos tais, são pecados mortais

Quero que saibas quem eu sou
Não te vou dar tudo o que é meu

Sabes quanto, quanto demorou
Descobre quem sou, faz de mim a tua luta

Dá-me, dá-me tudo o que tens p’ra me dar
Dá-me a tua raiva, dá-me o teu olhar
Faz-me, faz-me tudo o que tens a fazer
Dá-me a tua noite até ao amanhecer
Dá-me, dá-me tudo o que tens p’ra me dar
Dá-me a tua raiva, dá-me o teu olhar
Diz-me, diz-me tudo o que tens a dizer

Não quero ficar esquecido do meu passado
Lutei demais, feri-me demais

Vou percorrendo os trilhos, quando sei que não posso
Tenho sede demais, vi sangue demais
Dorme numa esquina da minha rua
Um sujeito estranho
Sentado lá continua parado nos passeios

As suas mãos fortes e gastas
Tocam as grades da antiga escola
Recorda a sua infância vendo meninos jogando à bola

Estranho estrangeiro
Diz-me onde moras
Sinto o teu cheiro
Quem me recordas?

Percorre avenidas e vê os engates
Parecem meninas
Começam por um disparate
Acabam loucas da vida, perdidas

Os cigarros apanhados do chão, os bolsos vazios
Dinheiro nem p’ra comprar pão
A vida por um fio

Não sou parte da jogada
Vejo do 2º andar
Não passei do hall de entrada
Não me dou nem quero dar

Imponho a minha sabedoria
Noutro jogo de xadrez
Xeque ao rei, má pontaria
A minha sina é como vês

Pode ser que tudo até bata certo
Podes crer da próxima vou ser mais esperto

O rapaz perdeu, o pontapé doeu
Não teve jeito p’ra rematar
O árbitro apitou, a bola falhou
Faltou-lhe a coragem na hora de marcar

Eu ponho os dedos entrelaçados
P’ra o azar afugentar
Na janela entusiasmado, p’lo teu golo eu vou esperar

O esférico bateu na trave
Pela milésima vez
Não me vou culpabilizar, se há culpados são vocês
Entrei numa casa fria
De portadas entreabertas
Espreitei a ver se te via
As ruas estavam desertas

Os amores já terminados
São ausência, fazem mal
Não me esqueço do recado

Nem de um gesto ocasional

Ao notares que estou mais velho
Passa por mim devagar
Quando /e se te olhares a um espelho
Também tu irás notar

Lembra-te de mim…

Os rostos p’ra quem os viu
Já não são como eram dantes
Percorro as margens de um rio
Há já séculos, há instantes

Vivo de vagas memórias
Onde te espero encontrar
São derrotas, são vitórias
Quero agora descansar
Olha que o acaso anda à espreita
Juro que o vi,
Olha que a sombra nele se deita
Por trás de mim, por trás de ti

Tatua todo o teu corpo escondido
Disfarça todo o teu corpo esquecido
Por sobre nós, oiço uma voz

Pode uma palavra calar e o medo afastar
Tudo num momento
A frase ficar no ar, e um gesto arrasar, numa fracção de tempo

Olha que a noite é vaga e louca
Que nos destrói e não nos poupa…
Sinto que o silêncio nos sufoca
Nos embaraça e nos provoca

Abraça bem de frente todo este cé
Que nos envolve num repente tudo o que é meu
Tudo o que é teu
Quantos medos tens
Tanto gesto vão
Quantas frases feitas
Falta-lhes razão

Quantas guerras mais
Só devastarão
Frios Generais
Que alucinação

Fazem perfilar à nossa direita
Vamos alinhar a quem nos espreita
Por cima do ombro

Quem não se escondeu
Deixou-se apanhar
Alguém se esqueceu
Que a terra nos ia devorar

Somos um pouco de tudo
Diferentes de toda a gente
Desafiemos o mundo
Que nos separa num repente

Tantos bons rapazes
Carne p’ra canhão
Poucos Capitães
Que desolação

Quantos Presidentes em má direcção
Tantos descontentes
Em contestação
Diz-nos onde estão
Diz-nos onde vão?…

Hoje é o dia de todos os dias
Hoje é o dia mais longo das nossas vidas
Põe o teu corpo bem junto do meu
Uma voz escondida disse eu, sou eu!

Cuida de mim, traz-me aconchego, tenho frio
Quero sair, leva-me p’ra um lugar que nunca ninguém viu

Depois será tarde, p’ra sempre mais tarde
Ontem já não conta, já está esquecido
Pedes-me o céu, respiro o teu ar
Desejas meu beijo, faz-me voar

Depois já cansados parecemos ausentes
Dividimos sonhos, seremos diferentes
Na cidade fantasma libertamos correntes
Podemos morrer de pé e de frente
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